Bertrand.pt - Dovoar

Dovoar

de Vasco Pontes 

Editor: Pé de Página Editores
Edição ou reimpressão: junho de 2007
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Poesia Talvez

Pus-me estas perguntas:
O que leva as pessoas a escrever poesia?

O que é que apela à escrita poética?
O que é a sensibilidade poética e que contornos ela assume quando se concretiza pela escrita?
E a que corresponde a irrupção da poesia?

Fui por tentativas e, tomando o auxílio da Sophia e do António, achei algumas palavras.

Poesia é Luta
Talvez luta
• contra o efémero que não queremos deixar entregue à corrente do esquecimento
• contra os silenciamentos e contra as teias da contenção
• contra os dizeres estafados em que já não nos reconhecemos
• contra os atavismos que tolhem a imaginação e censuram a utopia
• contra a indiferença perante nós mesmos
• contra esse espaço couraçado que não deixa penetrar as palavras que, com um não sei quê de beleza e de ambiguidade, nos apelam, se nos insinuam e desafiam, suscitando cumplicidades e perplexidades
• luta para que a palavra possa ser livre e assim nos liberte também para as infinitas possibilidades de inventarmos novas geografias, de nos deixarmos surpreender por visibilidades inauditas, de nos permitirmos ser tocados por formas não identificadas de sentir, de vivermos o limite e a aventura de uma liberdade coincidente com a criação

Poesia é talvez luta. Uma luta que é risco e aventura.

Ramos Rosa:
«o poema não se oferece na imediatidade de uma presença ou de uma evidência sem mistério, mas mantém permanentemente a tensão dos contrários na obscuridade de uma matéria fugidia e abissal. (…) A palavra poética é uma criação em que a relação do sujeito ao objecto não é a expressão adequada de um pelo outro mas relação livre e, como diz Nietzsche, "transposição insinuante, balbuciante numa linguagem completamente estranha"».

Poesia é desaceleração
Talvez desaceleração
• porque suscita um recolhimento que nos distancia da voracidade dos ritmos que já nada deixam saborear
• porque nos confronta com espaços misteriosos cuja decifração requer que não estejamos apenas de passagem
porque a escrita poética não está aí para nós sem que nós nos tenhamos preparado para a sua chegada, deixando que o seu tempo nos enlace
• porque no tempo da poesia o que conta não é o tempo, mas os sabores com que ela metamorfoseia e exalta a nossa sensibilidade

Poesia é talvez desaceleração. Uma desaceleração que nos traz apaziguamento.

Sophia de Mello Breyner Andresen:
«A mão traça no branco das paredes
A negrura das letras
Há um silêncio grave
A mesa brilha docemente o seu polido

De certa forma
Fico alheia»

Poesia é terapia
Talvez terapia
• porque exorciza padecimentos
• porque grita e afaga
• porque ri e ironiza
• porque fala de si como se de um outro se tratasse, como que dizendo eu sou mais do que eu, sou eu e isso, sou força de ser
• porque persiste na assumpção da singularidade, na aventura da busca de si

Poesia é talvez terapia. Uma terapia que liberta.

Ramos Rosa:
«Dir-se-ia que escrever suscita uma surdina
para nos arrancarmos a uma voz anterior e externa
e podermos recuperar uma voz mais longínqua
que somos nós próprios»

Poesia é testemunho

Talvez testemunho
• que mapeia a nossa escala de importâncias
• que indica pontos de passagem que mereceram uma paragem
• que mostra rotas e percursos com que ordenámos as contingências desta vida em que apenas nos é dado ir indo e ir sendo
• que assinala a nossa implicação
• que homenageia o que nos é querido e nos revela como sentir que comparece

Poesia é talvez testemunho. Um testemunho que nos diz presentes.

Sophia de Mello Breyner Andressen:
«A poesia não explica, implica. O poema não explica o rio ou a praia: diz-me que a minha vida está implicada no rio ou na praia. (…) É a poesia que me implica, que me faz ser no estar e estar no ser. É a poesia que torna inteiro o meu estar na terra».

Poesia é perserverança
Talvez perserverança

• em não deixar que o esgotamento nos esvazie
• em não permitir que os dissabores nos preencham até ao estrangulamento
• em não consentir que as formas belas de sentir possam alguma vez sucumbir ao cinzentismo da vida mundana repleta de feridas

Poesia é talvez perserverança. Uma perserverança que afirma a vida.

Sophia de Mello Breyner Andressen:
«A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.»

Poesia é um fazer habitar
Talvez um fazer habitar

• que acolhe e festeja o dizer em que o ser joga a sua comparência misteriosa
• que estreita a proximidade da nossa pertença ao mundo que acautela a palavra como instauração e abertura do mundo ao homem

Ramos Rosa:
«A palavra
nunca retorna ao magma
Nunca se toca a matéria mesma
Do que se escreve

Mas a palavra
anuncia
a abertura
e nela própria circula
a sombra que nos toca
e nos faz respirar»

Dovoar

Para o presente livro de poesia, da autoria de Vasco Pontes, apresentarei algumas hipóteses de leitura, sabendo que nenhuma destas hipóteses pode substituir a leitura de cada um e que é através da diversidade de leituras que o livro vai persistindo na vida e ganhando vida nova.
A primeira hipótese que me surgiu, e que resulta de reflexão sobre o livro na sua globalidade, é a de que, sendo o «dovoar» um livro de poesia, ele constitui também uma implícita explanação de uma determinada concepção de poesia.
A tornar verosímil esta hipótese estão diversos aspectos.
O primeiro é o próprio título da obra. «dovoar» é um neologismo curioso. Por um lado — e se colocarmos o espaçamento entre o «do» e o «voar» — evoca-nos a ideia do título de muitos tratados — por exemplo, «Da alma» de Aristóteles, «Da gramatologia» de Derrida, ou muitos outros. De qualquer forma, assim lido, o título faz-nos lembrar a ideia de um tratado sobre um assunto.
Mas a rasura do espaçamento e a fusão das duas palavras, dando origem a um neologismo, afasta-nos do campo teórico para que geralmente remetem os tratados, e aponta para um campo vivencial, aplicado e prático, ou ainda em acto. Assim, neste livro, não se teoriza sobre o voo; é antes, ele mesmo, um exercício de voo, um dovoar.
No entanto, este «dovoar», pelo menos se nos deixarmos instruir por alguns dos poemas, aparece como metáfora da próprio espírito que anima a produção poética.

Dovoar
de Vasco Pontes 
ISBN: 9789896140748 Ano de edição ou reimpressão: Editor: Pé de Página Editores Idioma: Português Dimensões: 145 x 205 mm Encadernação: Capa mole Páginas: 64 Tipo de Produto: Livro Classificação Temática: Livros  >  Livros em Português  >  Literatura  >  Poesia

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