Imaginem uma sala de teatro vazia. O palco está deserto e as cortinas fechadas, como se aguardassem uma nova história para ser contada. Ao longo de décadas, nesse palco, inúmeras histórias foram contadas. Mas… quem decidiu, ao longo de séculos, que histórias seriam essas e por quem seriam contadas?
Neste livro, Helena Carla Gonçalo Ferreira parte de uma pergunta aparentemente simples - Por que razão as mulheres artistas não ocupam os lugares de poder no teatro português? - para desmontar, camada por camada, as estruturas invisíveis que as têm mantido nas margens. Com uma abordagem ancorada nos Estudos Culturais e no feminismo pós-estruturalista, a autora recusa a ideia de que basta incluir mais mulheres: o que está em causa é uma transformação profunda das relações de poder que moldam a criação e o seu financiamento.
A investigação cruza dois estudos: um caso de estudo, com a análise do arquivo do Teatro Experimental do Porto, que revela o que os documentos guardam (e o que apagam), e um conjunto de entrevistas com atrizes portuguesas, cujas vozes irrompem ao longo do livro com uma franqueza desarmante. São mulheres que criaram depois de lavar a loiça, que resistiram sendo chamadas de chatas, loucas ou com mau feitio, e que forjaram, em silêncio e em movimento, os seus próprios lugares de poder.
O livro termina com uma peça de teatro, porque algumas históriasmerecem ser contadas em cena.