Parece que vai chover... - dizia um, assomando-se ao postigo, mal clareava a manhã. - Não me admiro... - respondia outro que passava, rematando de pronto a conversa. Nesta austeridade de trato, mais aparente que real, conviviam as gentes alentejanas presentes neste livro em povoações espalhadas pela planície, dependentes quase só da agricultura e dos gados. Aí decorria um tempo denso, fechado, repetido ano após ano. Tempo tão vagaroso que parecia não correr. De verões enormes e invernos de grande crueldade que as populações aceitavam como podiam não esperando ajuda caída do céu. Muitas histórias, contadas e recontadas, preenchiam as curtas paragens no trabalho, aproveitadas pelas mulheres mais velhas para descarados apartes que faziam corar o branco das paredes.
O maltês podia ser mal visto, mas para lá da sua figura maldita, não deixava de ser uma testemunha, talvez a mais misteriosa e controversa, da crueldade a que foi votada a classe camponesa alentejana em período não longínquo. Se, na verdade, abandonou os que lutavam na arena da fome e sozinho se perdeu numa fome mais humilhante, muito injusto seria considerá-lo somente como um pária. Apesar de não ter aguentado a pressão a que a maioria dos seus companheiros se viu sujeita, o preço que pagou pela fuga às fileiras foi muito elevado. Nem sempre os malteses foram maus, nem sempre varridos de sentimentos e muitas vezes foram heroicos a enfrentar o desprezo e a solidão.