Porquê ler George Orwell em 2021?

Por: Beatriz Sertório a 2021-01-21 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

George Orwell

George Orwell

George Orwell, pseudónimo do escritor Eric Arthur Blair, nasceu na cidade de Motihari, na então Índia britânica, a 25 de junho de 1903, tendo-se mudado para Inglaterra com a família, ainda durante a infância. Escritor e jornalista, Orwell é uma das mais influentes figuras da literatura do século xx. Defensor incondicional da liberdade humana e acérrimo opositor do totalitarismo, inscreve-se no panorama literário com as obras Dias Birmaneses (1934) e Homenagem à Catalunha (1938). Mas será, sem dúvida, com Quinta dos Animais (1945) e Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949), duas narrativas com uma atualidade assombrosa, que o autor alcança o reconhecimento internacional. Morreu de tuberculose, em Londres, a 21 de janeiro de 1950.

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Embora tenham sido muitos os autores do passado a escrever obras de ficção passadas no futuro, George Orwell foi talvez o que chegou mais próximo de ver os seus livros serem transportados das estantes das livrarias dedicadas às distopias para as de não-ficção. Escrita em 1948, a sua obra-prima sobre um regime totalitário controlado pela vigilância permanente do Grande Irmão, 1984, voltou ao topo de vendas nos EUA logo após a eleição de Donald Trump, dando provas da sua relevância e atualidade, sete décadas depois. Em 2021, ano em que assinalamos 71 anos desde a sua morte e a entrada das suas obras no domínio público, multiplicam-se as novas edições de 1984 e de A Quinta dos animais, provando, mais uma vez, que a obra Orwelliana continua viva e recomenda-se.

Foi no dia 21 de janeiro de 1950 que, com apenas 46 anos, Eric Arthur Blair morreu em Londres, vítima de tuberculose. Não viveu o suficiente para ver o apelido do seu pseudónimo ser elevado ao estatuto de adjetivo, numa sociedade cada vez mais Orwelliana, contudo homenageamo-lo hoje ao recordar as suas duas obras principais, e os motivos que fazem com que se mantenham atuais.

 

Cartoon do jornal The New Yorker.


1984

É quase impossível falar em George Orwell sem falar no Grande Irmão - o líder do partido único que vigia e controla a população do superestado da Oceania, em 1984. A frase Big Brother is watching you é repetida vezes sem conta, nos mais variados contextos, tendo até dado origem ao título de um reality show no qual os participantes são filmados 24 horas por dia. Mais recentemente, tem vindo a ser associado à era do capitalismo da vigilância em que vivemos atualmente. Este termo, usado e popularizado pela académica Shoshana Zuboff, que escreveu um livro com o mesmo nome - A era do capitalismo da vigilância -, descreve um  novo género de capitalismo que monetiza dados adquiridos por mecanismos de vigilância, sendo que a esta nova expressão de poder digital ela chama de Big Other  - numa clara referência à obra de Orwell. Mas o que torna 1984 tão especial?

Apesar do cenário aterrador descrito neste romance distópico, em que mecanismos como a vigilância constante, a tortura, a proibição da liberdade de expressão e até da própria capacidade de expressão, são utilizados para manter a população de Oceania sob controlo, 1984 não é um livro desprovido de esperança. Quando Winston e Julia, os protagonistas da obra, se conhecem e descobrem como o enlace dos seus corpos podia ser "um golpe contra o partido", um verdadeiro "acto político", tornam-se um símbolo de como o amor pode prevalecer mesmo nos tempos mais obscuros - sendo, talvez, por isso que o livro foi considerado perigoso e, consequentemente, banido em vários países com regimes autoritários. Está na lista dos 100 melhores romances de sempre, compilada pela Modern Library - em 13º lugar na seleção dos editores, e em 6º lugar na seleção dos leitores.

 

Citações mais famosas:

  • "O Grande Irmão está a ver-te!";
  • "Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força";
  • "Liberdade é a liberdade de dizer que dois e dois são quatro".
     

Temas que continuam atuais:

  • Vigilância em massa: talvez não tenhamos "telecrãs" como os que existem em 1984, mas cada vez temos vindo a compreender melhor como os nossos telemóveis e computadores são utilizados como mecanismos de vigilância, mais poderosos do que qualquer sistema de vigilância que existiu anteriormente;
  • Polícia do pensamento: apesar de terem passado décadas desde a publicação de 1984, a proibição da liberdade de expressão e a censura continuam a ser um problema em muitos países. A polícia do pensamento criada por Orwell vai ainda mais longe ao levar a população da Oceania a pensar que consegue ouvir todos os seus pensamentos mais perigosos;
  • Duplipensar: este que era, segundo Orwell, um termo que descrevia a capacidade de aceitar simultaneamente duas crenças mutuamente contraditórias como corretas, voltou a ser um conceito muito falado, com a emergência da controvérsia gerada à volta das notícias falsas (fake news), ou dos factos alternativos (alternative facts), termo utilizado pela diretora da campanha eleitoral de Donald Trump, em 2016.

 

Capas de novas edições de 1984.

 

A QUINTA DOS ANIMAIS (OU O TRIUNFO DOS PORCOS)

Apesar de ser uma fábula, A Quinta dos Animais (tradução literal do título original, Animal Farm) ou O Triunfo dos Porcos (título alternativo), é tudo menos uma história para crianças. Publicada em 1945, ano em que terminou a Segunda Guerra Mundial, é, mais do que isso, uma alegoria ao regime totalitário de Estaline e à Revolução Russa de 1917. Neste, os porcos da propriedade do senhor Jones iniciam uma revolta contra a tirania dos homens, que os exploram e usam para seu próprio proveito, e apoderam-se da quinta. No entanto, rapidamente, os porcos que se tornaram os novos líderes da propriedade, tornam-se corruptos e, na ânsia pelo poder, instalam uma verdadeira tirania, imposta pelo princípio de que "todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros".

No prefácio do livro, Orwell confessa que a ideia para a obra surgiu enquanto observava um jovem rapaz que se deslocava numa carroça e chicoteava o cavalo que a transportava. Sobre esse momento, escreve o autor: “Pensei que se os animais conhecessem a sua própria força não teríamos qualquer poder sobre eles e que os homens exploram os animais da mesma forma que os ricos exploram o proletariado.” Para além de ter sido considerado pela revista Time como um dos melhores livros da língua inglesa (entre 1923 e 2005), foi ainda adaptado para filme animado, com título homónimo, em 1955.

 

Citações mais famosas:

  • "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros".
  • "Quatro patas bom, duas patas ruim". 
  • "As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, e quem era porco".
     

Temas que continuam atuais:

  • Desigualdade entre classes: é o tema principal da obra, tecendo um exemplo perfeito de como a divisão pode nascer entre classes, na ausência do seu inimigo comum;
  • Racismo: embora não seja um tema assumido de A Quinta dos animais, a desigualdade que se gera entre os animais de diferentes espécies, pode ser interpretada à luz de problemas sociais como o do racismo e a crença de que existem raças superiores a outras;
  • Corrupção e abuso de poder: é um tema sempre presente na atualidade. Um dos maiores exemplos da corrupção dos líderes da quinta, e do seu abuso do poder, é a forma como fazem uso da linguagem para manipular e enganar os outros animais. O exemplo máximo disto pode ser encontrado nos 7 mandamentos do Animalismo, redigidos e impostos pelos porcos, que, apesar disso, são continuamente distorcidos e quebrados pelos mesmos.

 

Capas de novas edições de A Quinta dos animais (ou O Triunfo dos Porcos).

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