Como a inteligência artificial está a aprender a escrever, a pintar e a pensar

Por: Marisa Sousa a 2020-11-23

Marcus Du Sautoy

Marcus Du Sautoy

Marcus du Sautoy, nascido em 1965 em Londres, é professor de Matemática da Universidade de Oxford, onde foi nomeado em 2008 para a cátedra Simonyi Chair for the Public Understanding of Science, e membro da Royal Society. Apresentou numerosos programas na televisão e rádio, entre os quais a excecional série da BBC The Story of Maths e o concurso televisivo sobre matemática The School of Hard Sums. Colaborador habitual dos jornais The Guardian, The Times e The Daily Telegraph, escreveu e interpretou uma peça intitulada X&Y, apresentada no Museu da Ciência de Londres e no Festival de Glastonbury. Foi distinguido com a Ordem do Império Britânico pelos serviços à ciência em 2010.

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Últimos artigos publicados

Porquê ler George Orwell em 2021?

Embora tenham sido muitos os autores do passado a escrever obras de ficção passadas no futuro, George Orwell foi talvez o que chegou mais próximo de ver os seus livros transportados das estantes das livrarias dedicadas às distopias para as de não ficção. Escrita em 1948, a sua obra-prima sobre um regime totalitário controlado pela vigilância permanente do Grande Irmão, 1984, voltou ao topo de vendas nos EUA logo após a eleição de Donald Trump, dando provas da sua relevância e atualidade mesmo passado sete décadas. Em 2021, ano em que assinalamos 71 anos desde a sua morte e a entrada das suas obras no domínio público, multiplicam-se as novas edições de 1984 e A Quinta dos animais, provando mais uma vez que a obra Orwelliana continua viva e recomenda-se. 

Eleições presidenciais | História de um país que emergiu "da noite e do silêncio"

Embora a Primeira República tenha visto nascer a luta pelo direito universal ao voto, foi apenas em 1975, um ano após aquele “dia inicial inteiro e limpo” que Sophia de Mello Breyner viu amanhecer, que se realizaram as primeiras eleições verdadeiramente livres em Portugal. Desde então, esse sonho da democracia que finalmente se fizera cumprir no nosso país, tem vindo a ser consolidado pelo exercício do voto – um direito com o peso de um dever, de um país marcado pela certeza de que “quem adormece em democracia, acorda em ditadura.”Recordamos a propósito das eleições presidenciais que decorrem no próximo domingo, dia 24 de janeiro, algumas curiosidades sobre a História das eleições em Portugal.

O primeiro livrólico e outras curiosidades sobre a História da Leitura

Se para alguns o ato da leitura não é mais do que uma forma de distração e de passar o tempo, um verdadeiro livrólico sabe que pode ser muito mais. Fonte de conhecimento, de prazer, de consolo ou até objeto de subversão, o livro tem sido um dos meios mais valiosos para compreender a civilização e o mundo ao longo dos tempos. Alberto Manguel, autor, editor, tradutor e, em tempos, leitor pessoal de Jorge Luis Borges, quando a visão do autor argentino deixou de lhe permitir dedicar-se à atividade que mais prazer lhe dava, tem dedicado a sua vida aos livros: a lê-los, a escrevê-los, a escrever sobre eles, tendo anunciado, em setembro de 2020, a doação da sua magnânima biblioteca (composta por cerca de 40 mil volumes) à cidade de Lisboa.

Em 1953, Roald Dahl, num dos seus Contos do Imprevisto, dá vida ao Great Automatic Grammatizator, uma máquina capaz de escrever, em 15 minutos, romances vencedores de prémios, com base nas obras de autores vivos. Hoje, a realidade — como aliás já nos habituou — ri-se, desafiadora, na cara da ficção, suplantando-a tantas vezes. Poderá um computador compor uma sinfonia, escrever um romance premiado ou pintar uma obra-prima? E, nesse caso, seríamos capazes de perceber que a criação se deve a uma máquina? Estaremos nós a colocar em marcha algo que não conseguimos controlar? É talvez com mais dúvidas do que certezas que ficamos quando falamos de Inteligência Artificial (IA). O Código da Criatividade (Temas e Debates), de Marcus du Sautoy, propõe-nos uma viagem fascinante ao mundo das máquinas criativas. Fomos desbravar o capítulo sobre a criação literária, deste livro que é (e deve ser) de digestão lenta.



ERA UMA VEZ… UMA FORMA PRIMITIVA DE CIÊNCIA


A narração de histórias, nos seres humanos, provavelmente teve a sua génese na pergunta “E se…?”. Contar histórias era a nossa maneira de fazer experiências seguras. Ao contar uma história de “E se…?”, estamos a explorar possíveis implicações das nossas ações, defende Sautoy. Talvez as primeiras histórias tenham nascido precisamente do desejo de encontrar algum tipo de ordem no caos que nos rodeava, de encontrar um sentido no universo. Era uma forma primitiva de ciência.

O algoritmo de narração de histórias Scheherazade-IF, desenvolvido por Mark Riedl e pelos seus colegas do Georgia Institute of Technology, deve o seu nome à famosa contadora de histórias Xerazade, que salvou a sua própria vida inventando uma nova história todas as noites, para cativar e distrair o seu marido assassino (o IF significa Interactive Fiction). Se pedirmos ao Scheherazade-IF que construa uma história sobre um tema ou uma situação específica com a qual este nunca se tenha deparado, ele irá instruir-se sobre esse tema, procurando e assimilando histórias anteriores, compilando exemplos numa árvore de possíveis direções em que a história poderá seguir, com base em histórias anteriores.


Por seu lado, a What If Machine, ou Whim, financiada pela União Europeia, quando foi criada pretendia tirar contadores de histórias da sua zona de conforto, sugerindo possíveis cenários novos. A Whim está programada para gerar sugestões narrativas em seis categorias de ficção: Kafkiana, Cenários Alternativos, Utopia e Distopia, Metáforas, Musicais e Disney. Em 2016, o canal de televisão Sky Arts, interessado em sondar os limites da criação algorítmica, encomendou um musical criado por IA e a Whim foi responsável por sugerir um enredo que acabaria por levar à encenação desse musical no West End. Durante o processo, acabou por ter a ajuda do PropperWryter, outro algoritmo, que tivera algum sucesso a gerar contos de fadas. O seu algoritmo foi treinado com 31 modelos narrativos para histórias populares russas, identificadas pelo estruturalista Vladimir Propp, em 1928. A música ficou a cargo de outro algoritmo: o Android Lloyd Webber.

 

Computador Ferranti Mark I.

 

POETAS CIBERNÉTICOS OU COMO TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS

 

"PATINHO
és o meu encantamento desejoso. a minha paixão anseia,
curiosa, pelo teu desejo harmonioso. a minha simpatia
está apaixonadamente aferrada à tua ardente ambição. o meu
charme precioso deseja avidamente o teu ardor cúpido.
és a minha devoção ansiosa.
o teu fogosamente.”


Reconhece o autor do poema? Provavelmente, não. Foi um dos poemas escritos pelo computador Ferranti Mark I, usado na década de 1950 para, entre outras questões, lidar com problemas da teoria atómica. Christopher Strachey decidiu programá-lo para selecionar palavras ao acaso, a partir de um conjunto de dados, e inseri-las nas variáveis do seu algoritmo simples, de acordo com um modelo muito básico:
 

és o meu (nome) (adjetivo). O meu (nome) (adjetivo)
(advérbio) (verbos) o teu (nome) (adjetivo).


Na década de 60, em França, Jean Lescure, um dos elementos que integrava o grupo de escritores e matemáticos Oulipo, desenvolveu o algoritmo S+7, que tomava como input qualquer poema e depois agia sobre todos os substantivos do poema, mudando-o para sete palavras posteriores do dicionário. Georges Perec, que pertenceu ao grupo, estruturou o seu romance A Vida Modo de Usar de acordo com o algoritmo Knight’s Tour (Problema do cavalo ou Passeio do cavalo), um problema matemático envolvendo o movimento da peça do cavalo no tabuleiro de xadrez. O cavalo é colocado no tabuleiro vazio e, seguindo as regras do jogo, tem de passar por todas as casas exatamente uma vez em movimentos consecutivos. Ray Kurzweil, que escreve frequentemente sobre a iminente fusão entre homem e máquina, criou o Cybernetic Poet e treinou-o com obras de reconhecidos poetas, como Shelley e T.S. Eliot. Num Teste de Turing — que testa a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente equivalente a um ser humano, ou indistinguível deste —, o Cybernetic Poet conseguiu enganar jurados humanos na maior parte dos casos. Os resultados e os poemas de Kurzweil podem ser consultados através do link .

 

“Um output enigmático de um algoritmo pode passar por poesia escrita por um humano." — Marcus du Sautoy

 

Oulipo.

 

A FÓRMULA DO SUCESSO


Hoje, é possível um algoritmo percorrer toda a obra de um autor e aprender algo sobre a forma como ele escreve. A utilização da aprendizagem automática para criar nova literatura tem sido defendida pelo grupo Botnik, criado em 2016, que funciona hoje como uma comunidade aberta de escritores que usam a tecnologia na criação de comédias.

Estaremos a tornar-nos leitores previsíveis? Um algoritmo escrito pela editora Jodie Archer, e por um analista de dados, Mattew Jockers, propõe-se detetar se um livro é um provável bestseller ou não. O algoritmo descobriu que os leitores de bestsellers gostam de frases curtas, de narrativas conduzidas por uma voz e de um vocabulário menos erudito do que o dos leitores de ficção literária.

 

“Todas as decisões tomadas por um artista são impulsionadas, até certo ponto, por uma reação algorítmica do corpo ao mundo que o rodeia." — Marcus du Sautoy

 

Marcus du Sautoy acredita que, apesar da variabilidade e da inovação, o atual estado da narração de histórias algorítmica não é uma ameaça para os autores. Os cientistas começam a reconhecer que coisas genuinamente novas podem emergir de combinações de coisas antigas e que o todo pode ser mais do que a soma das suas partes. No entanto, talvez devêssemos encarar os produtos dos nossos novos e complexos algoritmos um pouco como fenómenos emergentes, aconselha Sautoy, acrescentando que as máquinas não parecem ter nada a dizer, além do que lhes damos para fazer. A nossa criatividade está intimamente ligada ao nosso livre-arbítrio, algo que, segundo ele, é impossível de automatizar e conclui: “As empresas (que desenvolvem IA) adoravam conseguir convencer o público de que esta IA é tão fabulosa que consegue escrever artigos sozinha, que consegue compor música, pintar Rembrandts. É tudo um combustível para convencer os clientes de que a IA disponível também vai transformar as suas empresas, caso invistam. Contudo, quando olhamos para lá da excitação, vemos que ainda é o código humano que está a comandar essa revolução.”

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