Aristides de Sousa Mendes | Contra o ódio: amar e desobedecer

Por: Beatriz Sertório a 2021-01-27 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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Passaram-se 76 anos desde a libertação do Campo de Concentração e Extermínio Nazi de Auschwitz-Birkenau pelas tropas soviéticas, um acontecimento que se assinala anualmente no dia 27 de janeiro – reconhecido oficialmente como o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. Contudo, apesar dos horrores “que a mente humana não consegue imaginar" (Marcel Nadjari), cometidos em nome do ódio e da divisão, durante a Segunda Guerra Mundial, a recente ascensão da extrema-direita na Europa ameaça deixar cair no esquecimento as lições do passado.

Como alertam Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, em Como Morrem as Democracias, “a História não se repete, mas rima”. Por essa razão, decidimos assinalar este dia recordando o exemplo de um homem que compreendeu que, face à irracionalidade do mundo, a única resposta possível é desobedecer; um herói português cujo altruísmo lembramos como reconhecimento (e esperança) de que é mais forte o que nos une que aquilo que nos separa. Recordemos Aristides de Sousa Mendes.


“Não participo em chacinas, por isso desobedeço a Salazar”

 

Nascido em Cabanas de Viriato (distrito de Viseu), a 19 de julho de 1885, aquele que veio a ser conhecido como o “cônsul desobediente”, iniciou o seu percurso rumo a uma carreira diplomática ao licenciar-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Após mudar-se para Lisboa e casar-se com a mulher com quem viria a ter catorze filhos, inicia o seu trabalho como cônsul, tendo ocupado diversas delegações consulares pelo mundo, em países como Zanzibar, Brasil, Estados Unidos da América, Luxemburgo ou Espanha. Em 1938, um ano antes do início da Segunda Guerra Mundial e em plena ditadura do Estado Novo, é nomeado por António de Oliveira Salazar para exercer o cargo de cônsul em Bordéus, França.

É aí, que, confrontado com a Circular 14, um documento que ordenava a suspensão de concessão vistos aos refugiados (e, explicitamente, judeus, russos e apátridas), até aprovação dos mesmos pela PIDE, toma a decisão que irá ditar para sempre o seu legado: desobedecer. Em 1940, após um encontro com o rabino Kruger, um refugiado que escapara à invasão da Polónia, decide começar a emitir vistos sem distinção de “raça ou religião”, indo diretamente contra as ordens que lhe haviam sido dadas. Durante três dias e três noites, ajudado pelos seus filhos mais velhos, concedeu vistos de entrada em Portugal a milhares de refugiados, incluindo muitos judeus que fugiam dos países ocupados pela Alemanha nazi. Conta-se que, para o final, terá passado vistos em todo o tipo de papéis onde lhe fosse possível colocar o carimbo do Consulado e a sua assinatura.

 

Rabino Kruger e Aristides Sousa mendes, em 1940-1941.

 

“Que mundo é este em que é preciso ser louco para fazer o que está certo?”

 

Não é conhecido o número exato de pessoas que Aristides conseguiu salvar, mas estima-se que possam ter sido até três dezenas de milhares. Em 2020, num livro publicado pela investigadora Ana Cristina Luz, A lista de Aristides de Sousa Mendes, foram reveladas as histórias das pessoas que, com a ajuda do cônsul, conseguiram viajar até Portugal, seguindo depois para países da América do Sul, para os Estados Estados Unidos da América e para o Canadá, onde prosseguiram carreiras ligadas às artes e à cultura. Entre os nomes revelados pela investigação, o mais sonante é o de Salvador Dalí, constando também o de Ivan Sors, o pintor que inspirou o livro de Afonso CruzO pintor debaixo do lava-loiças, o do ator norte-americano Robert Montgomery, o do pianista polaco Witold Malcuzynski ou da escritora francesa Tereska Torrès

Embora Aristides tenha agido de acordo com aquilo que a sua consciência lhe dizia estar certo, naturalmente, as suas ações chamaram a atenção de Salazar que, a 20 de junho de 1940, ordenou a sua comparência em Lisboa. Aí, pagou o preço pela sua desobediência ao ser demitido das suas funções como cônsul e proibido de exercer a profissão de advogado. Por causa deste castigo, passou os últimos anos da sua vida em grandes dificuldades económicas, tendo mesmo chegado a frequentar, juntamente com os seus familiares, a cantina da assistência judaica internacional onde, com tristeza, conta-se que afirmou: "Nós também, nós somos refugiados". Apesar disso, durante boa parte de 1940, a sua casa, em Cabanas de Viriato, ainda serviu de refúgio a alguns dos fugitivos cuja vida salvou. Em 1954, pobre e endividado, morreu em Lisboa (onde vivia em casa de um familiar, devido às dificuldades que passava), na sequência de uma broncopneumonia.

 

Aristides com a mulher, Angelina, e nove dos seus filhos, em 1929.

 

“Posso ter errado, mas se errei não o fiz com intenção, tendo procedido sempre segundo os ditames da minha consciência que, apesar do esgotamento nervoso que sofri e sofro pelo excesso de trabalho suportado, passando semanas quase sem dormir, nunca deixou de me guiar no cumprimento dos meus deveres, com pleno conhecimento das minhas responsabilidades.”

 

Apesar de, em vida, nunca ter conhecido qualquer reconhecimentos pelos seus feitos, a posteridade tratou de trazer justiça ao legado de Aristides. A primeira homenagem à sua bravura chegou 12 anos após a sua morte, em 1966, quando lhe foi atribuído o título de “Justo entre as Nações” pelo Yad Vashem, Memorial do Holocausto, em nome do Estado de Israel – título dado a não-judeus que tenham arriscado a vida para salvar judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Já em Portugal, o primeiro a prestar-lhe homenagem foi o (na altura) presidente da República Mário Soares que, em 1944, criou uma placa comemorativa na Rua 14 quais Louis-XVIII, o antigo endereço do consulado de Portugal em Bordéus, e, em 1986,  condecorou Aristides, a título póstumo, com o grau de Oficial da Ordem da Liberdade, tendo apresentado publicamente um pedido de desculpas à sua família. Mais tarde, foram também restituídos à família os salários que lhe haviam sido penhorados injustamente por Salazar e, em 2016, o ex-cônsul foi elevado a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Sobre as ações heróicas de Aristides de Sousa Mendes, escreveu, em 1940, a escritora Gisèle Quittner Allatini, agradecendo a ajuda recebida por ele em Bordéus: “O Senhor é para Portugal a melhor das propagandas, e uma honra para a sua Pátria. Todos aqueles que o conheceram elogiam a sua coragem, o seu grande coração. O seu espírito cavalheiresco, e acrescentam: se os Portugueses são como o Cônsul Geral Mendes, são um povo de cavalheiros e de heróis”. Numa altura em que a liberdade e o respeito pelos direitos humanos em Portugal poderão estar novamente ameaçados, busquemos inspiração na sua loucura para fazer aquilo que está certo pois, como escreve Fernando Pessoa, o “amanhã é dos loucos de hoje!”.

 

Placa num passeio de Viena, na Áutria.

Opinião dos leitores

Aristides de Sousa Mendes recebe homenagem na Arge
Victor Antonio Lopes | 27-01-2021
Recientemente la Legislatura de la Ciudad de Buenos Aires aprobó un proyecto del Diputado Martin Ocampo para la colocación de una placa recordatoria en la Plaza Portugal del Barrio de Colegiales con los nombres de los cuatro portugueses que salvaron vidas durante el Holocausto. El caso que quizás es más conocido es el del Cónsul de Portugal en Burdeos: Aristides de Sousa Mendes que desobedeciendo las órdenes del dictador Salazar firmó contra reloj más de treinta mil visas a los perseguidos por el nazismo y que ahora el Gobierno de Portugal se propone homenajear a través del Proyecto "Nunca Olvidar". En Buenos Aires el Seminario Rabínico Latinoamericano y la Embajada de Portugal llevan adelante la "Cátedra Sousa Mendes" que consiste en seis clases virtuales de participación libre y gratuita, tres que fueron realizadas durante el 2020 y otras tres que se llevarán a cabo durante el 2021. La ruta de las personas salvadas por Sousa Mendes también llego a la Argentina nos confiesa uno de sus más entusiastas seguidores, Victor Lopes es argentino e hijo de portugueses, fue productor en el año 2017 del documental recientemente presentado por la Televisión Pública: Arístides,un hombre bueno, "cuando comencé a hablar de este personaje hace más de siete años percibí una oposición que hoy en día ya casi no existe, obviamente que la consolidación del sistema democrático en ambos países (Portugal y Argentina) tiene muchísimo que ver en esta nueva etapa". https://www.facebook.com/aristidesdesousamendesargentina
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