Viver sem ler (Saramago) é perigoso

Por: Beatriz Sertório a 2018-10-19 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

José Saramago

José Saramago

Prémio Nobel de Literatura, 1998

Autor de mais de 40 títulos, José Saramago nasceu em 1922, na aldeia de Azinhaga.
As noites passadas na biblioteca pública do Palácio Galveias, em Lisboa, foram fundamentais para a sua formação. «E foi aí, sem ajudas nem conselhos, apenas guiado pela curiosidade e pela vontade de aprender, que o meu gosto pela leitura se desenvolveu e apurou.»
Em 1947 publicou o seu primeiro livro que intitulou A Viúva, mas que, por razões editoriais, viria a sair com o título de Terra do Pecado. Seis anos depois, em 1953, terminaria o romance Claraboia, publicado apenas após a sua morte.
No final dos anos 50 tornou-se responsável pela produção na Editorial Estúdios Cor, função que conjugaria com a de tradutor, a partir de 1955, e de crítico literário.
Regressa à escrita em 1966 com Os Poemas Possíveis.
Em 1971 assumiu funções de editorialista no Diário de Lisboa e em abril de 1975 é nomeado diretor-adjunto do Diário de Notícias.
No princípio de 1976 instala-se no Lavre para documentar o seu projeto de escrever sobre os camponeses sem terra. Assim nasceu o romance Levantado do Chão e o modo de narrar que caracteriza a sua ficção novelesca. Até 2010, ano da sua morte, a 18 de junho, em Lanzarote, José Saramago construiu uma obra incontornável na literatura portuguesa e universal, com títulos que vão de Memorial do Convento a Caim, passando por O Ano da Morte de Ricardo Reis, O Evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a Cegueira, Todos os Nomes ou A Viagem do Elefante, obras traduzidas em todo o mundo.
No ano de 2007 foi criada em Lisboa uma Fundação com o seu nome, que trabalha pela difusão da literatura, pela defesa dos direitos humanos e do meio ambiente, tomando como documento orientador a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Desde 2012 a Fundação José Saramago tem a sua sede na Casa dos Bicos, em Lisboa.
José Saramago recebeu o Prémio Camões em 1995 e o Prémio Nobel de Literatura em 1998.
O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, condecorou postumamente, a 16 de novembro de 2021, José Saramago com o grande-colar da Ordem de Camões, pelos "serviços únicos prestados à cultura e à língua portuguesas", no arranque das comemorações do centenário do nascimento do escritor.

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Lembrando um aviso da personagem do cartoonista Quino, Mafalda: "Viver sem ler é perigoso porque obriga-[nos] a acreditar no que [nos] dizem". Sermos leitores é também sermos leitores e intérpretes do mundo, é sabermos analisá-lo e questioná-lo, de modo a não cairmos em dogmas. Poucos o fizeram de forma tão exímia como José Saramago. A sua obra Ensaio sobre a cegueira continua a ser uma leitura fundamental e uma alegoria alarmante dos perigos que corremos quando deixamos de ver o outro.


Como disse William Faulkner, também ele vencedor do prémio Nobel da Literatura (em 1950), “[o] que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no meio da noite. Um fósforo não ilumina quase nada, mas permite-nos ver quanta escuridão existe ao nosso redor” (Faulkner citado por Javier Marías). Esse foi, realmente, o mote de grande parte da obra literária de José Saramago. Fazendo uso da fantasia e da realidade, da ficção e do relato histórico, como só ele sabia fazer, pintou-nos retratos da nossa sociedade e, em última análise, da nossa própria humanidade, iluminando, muitas vezes os aspetos que, por norma, estão votados à escuridão.

Foi, aliás, esse aspeto da sua criação literária que foi homenageado pela Academia Sueca, justificando a escolha do autor como aquele “que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”. É, igualmente, isso que as distopias pretendem fazer. Através da criação de realidades ampliadas e satirizadas da nossa, criam paralelismos entre as duas, de modo a servir de advertência para os perigos de certos comportamentos.

Saramago fazia este tipo de alertas recorrendo, frequentemente, ao humor, tendo feito críticas mordazes a instituições como a igreja, Deus e a religião ou o poder político. Em Ensaio sobre a cegueira, desenvolveu uma das suas maiores críticas à sociedade. Neste, “um homem fica cego, inexplicavelmente, quando se encontra no seu carro no meio do trânsito” e, gradualmente  “[a] cegueira alastra como um rastilho de pólvora” até se tornar numa cegueira coletiva, um mundo de cegos – alegoria de um mundo (o real) de “cegos que vendo, não veem”.

Esta cegueira de Saramago pode ter muitas associações na nossa sociedade contemporânea. É a cegueira da indiferença, do individualismo, da intolerância … É, sobretudo, a cegueira do medo, alienante e contagiante e, por isso, perigosa. Como escreve numa passagem de Ensaio sobre a cegueira, num tom profundamente atual: “O medo cega”. E é, também, por isso que a literatura é tão importante: para convidar as pessoas a sair da sua zona de conforto e a descobrir o desconhecido, a confrontar o outro, vestir a sua pele e ver que, afinal, não somos assim tão diferentes. É por essa razão que, embora pintem uma realidade negra, os livros distópicos, por norma, não são totalmente despojados de esperança.

 

O que a literatura faz é o mesmo que acender um fósforo no meio da noite (…) William Faulkner

 

Num mundo de cegos, há quase sempre um (ou dois, no caso de 1984) que começam, aos poucos, a delinear formas no nevoeiro, a distinguir o que é real do que não é e a ver as coisas como elas são (literal ou metaforicamente). É esse o caso da personagem principal (sem nome) de Ensaio sobre a cegueira que, para além de manter a sua visão, mantém também a sua humanidade, auxiliando o grupo a sobreviver não só à cegueira dos sentidos mas à cegueira maior, a cegueira ética, que os ameaça desumanizar. É também o caso de Winston e Julia, personagens de 1984, e do seu amor, que é como um golpe político contra um estado totalitário que proíbe as relações afetivas, ou de Offred em A História de uma Serva cuja resistência inspira, ainda hoje, à rebelião contra o conservadorismo e o fundamentalismo religioso no que diz respeito aos direitos das mulheres. É, igualmente, o caso dos leitores, que se recusam a acreditar meramente no que lhes dizem, como adverte Mafalda, e, assim, combatem os perigos de um mundo devotado ao medo e à ignorância.

Saramago escreve que a cegueira é também (…) viver num mundo onde se tenha acabado a esperança. A isso temos a acrescentar que cegueira pode também ser viver num mundo em que não se lê, ou ainda: O pior cego é aquele que não quer [l]er.

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