Os livros censurados pelo Estado Novo

Por: Sónia Rodrigues Pinto a 2019-04-24 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

Miguel Torga

Miguel Torga

Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, autor de uma vasta produção literária, largamente reconhecida e traduzida em várias línguas. Nasceu em S. Martinho de Anta em 1907. Depois de uma experiência de emigração no Brasil durante a adolescência, cursou Medicina em Coimbra, onde passou a viver e onde veio a falecer em 1995. Foi poeta presencista numa primeira fase; a sua obra abordou temas sociais como a justiça e a liberdade, o amor, a angústia da morte, e deixou transparecer uma aliança íntima e permanente entre o homem e a terra. Estreou-se com Ansiedade, destacando-se no domínio da poesia com Orfeu Rebelde, Cântico do Homem, bem como através de muitos poemas dispersos pelos dezasseis volumes do seu Diário; na obra de ficção distinguimos A Criação do Mundo, Bichos, Novos Contos da Montanha, entre outros. O Diário ocupa um lugar de grande relevo na sua obra. Também como escritor dramático, publicou três obras intituladas Terra Firme, Mar e O Paraíso. Recebeu, entre outros, o Prémio Montaigne em 1981, o Prémio Camões em 1989 e o Prémio Vida Literária (atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores) em 1992.

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Natália Correia

Natália Correia

Natália Correia nasceu na Fajã de Baixo, São Miguel, Açores, a 13 de setembro de 1923. Poetisa, ficcionista, contista, dramaturga, ensaísta, editora, jornalista, cooperativista, deputada à Assembleia da República (primeiro pelo PSD, depois como independente pelo PRD), foi uma das vozes mais proeminentes da literatura e da cultura portuguesas na segunda metade do século xx, tendo resistido energicamente ao Estado Novo e aos radicalismos do pós-25 de Abril. Ecuménica e eclética, filantropa e idealista, anteviu um novo tempo, que garantisse a paz, a dignidade humana, a justiça social e o direito à diferença como raízes indeléveis da democracia. Morreu em Lisboa, a 16 de março de 1993.

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Henry Miller

Henry Miller

Henry Miller nasceu em Brooklyn, nos Estados Unidos da América, a 26 de dezembro de 1891. Em 1930, respondendo a um espírito aventureiro e ao desejo de se dedicar à escrita, partiu para a Europa e fixou-se em Paris. Foi aí que, em 1934, publicou o seu primeiro romance autobiográfico, Trópico de Câncer, a que se seguiu, em 1939, Trópico de Capricórnio, ambos banidos durante quase três décadas nos Estados Unidos. Em 1942, pouco depois de se instalar definitivamente na Califórnia, iniciou a redação da trilogia Rosa-Crucificação, Sexus, Plexus, Nexus, considerada uma das suas obras maiores, onde conjuga reflexão metafísica com um erotismo explícito. Miller foi um dos mais marcantes autores americanos do século xx, cuja insubmissão, quer na vida, quer na literatura, viria a influenciar fortemente a chamada beat generation. Faleceu em casa a 7 de junho de 1980.

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Friedrich Nietzsche

Friedrich Nietzsche

Um dos filósofos emblemáticos dos finais século XIX, nasceu em 1844, em Röcken, e morreu em 1900, atacado pela demência, em Weimar. As suas reflexões caracterizam-se por uma violenta crítica aos valores da cultura ocidental.

Com efeito, para Nietzsche, a decadência do Ocidente começou quando o discurso filosófico, depois de Sócrates, veio afastar a síntese que se realizara na tragédia grega, substituindo a harmonia apolíneo/dionisíaco (representando a ambivalência da essência humana, dividida entre a desmesura passional e a medida racional) por um discurso das aparências, enganador e ilusório, que transforma a realidade autêntica em metáforas ocas. Esse processo de desvitalização encontrará o apogeu com a afirmação da moral judaico-cristã, «moral de escravos», reflexo de uma maquinação hipócrita de indivíduos débeis, ignóbeis e vis numa tentativa de enfraquecer e dominar pela astúcia os valorosos.
A crítica nietzschiana acaba mesmo por abranger os fundamentos da razão, considerando que o erro e o devaneio estão na base dos processos cognitivos e que a fé na ciência, como qualquer fé em verdades absolutas, não passa de uma quimera.
Não se limitando, porém, à denúncia de um estado de espírito dominado pela submissão a valores ancestrais, impotentes para criar algo de novo e propagando a obediência e a servidão como princípios supremos, ao proclamar a «morte de Deus» e a abolição de qualquer tutela, Nietzsche passa ao anúncio de uma nova era centrada na exaltação da vontade de poder, apanágio do homem verdadeiramente livre, o super-homem, que não conhece outros ditames além dos que ele próprio fixa. No entanto, o super-homem não é unicamente dominado pelo egoísmo, cabendo-lhe dirigir a «massa», anónima e ignorante, para um estádio superior em que os valores vitais, a alegria e a espontaneidade permitam a reafirmação do instinto criador da humanidade.

Pensador paradoxal, associa ao super-homem a consciência do eterno retorno, procurando, talvez, exprimir o aspeto cíclico dos movimentos históricos ou a impossibilidade de, alguma vez, ser atingido um grau supremo de perfeição no devir do Homem.
Expressando-se de forma aforística e mantendo todas as suas afirmações no limiar da inteligibilidade imediata, Nietzsche foi um filósofo ímpar, tão inovador como polémico: ao exaltar, em detrimento da razão, a faculdade da vontade como núcleo da essência humana e verdadeiro motor do devir e colocando-se numa posição de profundo ceticismo face aos fundamentos da ética e da moral, abalou profundamente os pilares do racionalismo, sendo por isso considerado como um dos «filósofos da suspeita» (ao lado de Marx e Freud), na esteira da «crise da razão» que marcou profundamente a filosofia no século XX. Entre as suas obras são de destacar:
A Origem da Tragédia (1872), Humano, Demasiado Humano (1878), Aurora (1881), A Gaia Ciência (1882), Assim Falou Zaratustra (1883-85), Para além do Bem e do Mal (1886), A Vontade de Poder (1886, editado em 1906), A Genealogia da Moral (1887), Ecce Homo (1888), O Anticristo (1888).

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Urbano Tavares Rodrigues

Urbano Tavares Rodrigues

Urbano Tavares Rodrigues não é apenas o grande escritor do Alentejo, das suas gentes e das suas paisagens, é também o romancista e contista de Lisboa e de outras atmosferas cosmopolitas que, como jornalista e professor universitário, bem conheceu, viajando por todo o mundo.
Catedrático jubilado da Faculdade de Letras de Lisboa, membro da Academia das Ciências, tem uma obra literária e ensaística muito vasta e traduzida em inúmeros idiomas, do francês e do espanhol ao russo e ao chinês. Obteve diversos prémios, entre eles o de Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, o prémio Fernando Namora, o Ricardo Malheiros da Academia das Ciências, etc.
De entre os seus maiores êxitos de crítica e de público, lembramos A Noite Roxa, Bastardos do Sol, Os Insubmissos, Imitação da Felicidade, Fuga Imóvel, Violeta e a Noite, O Supremo Interdito, Nunca Diremos Quem Sois, A Estação Dourada.
Urbano Tavares Rodrigues, que foi afastado do ensino universitário durante as ditaduras de Salazar e Caetano, participou ativamente na resistência e foi preso e encarcerado por várias vezes nos anos sessenta.
Faleceu no dia 9 de agosto de 2013, em Lisboa.

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Outono é sinónimo de chuva, de dias de frio passados debaixo de uma manta, de ruas pintadas de tons de laranja, meias felpudas e chá. É também sinónimo de rentrée literária, a altura em que chegam às livrarias alguns dos livros mais aguardados do ano. Para dar as boas-vindas à nova estação, partilhamos consigo algumas das novidades mais interessantes que poderá encontrar nas nossas livrarias até ao final do ano. Prepare-se para ver a sua "lista de desejos" a aumentar!

Hoje, dia 25 de abril de 2019, celebramos 45 anos de liberdade, depois de mais de 40 anos de um Portugal submergido num regime de censura e opressão política. Desde a comunicação social até às mais diversas formas de arte, todas as publicações passavam pelo escrutínio do Lápis Azul, nome pelo qual ficou conhecida a censura da polícia política, que rasurava a informação considerada imprópria, aos olhos do Governo.

De acordo com o investigador José Brandão, que em 2012 compilou uma lista com 900 livros censurados pelo Estado Novo, bem como a informação que integra um catálogo publicado pela Universidade de Aveiro, em 2014, relembramos algumas das obras literárias censuradas, de 1933 a 1974, sinais de uma época que nos faz valorizar, hoje, cada vez mais, a liberdade de expressão.

 


 

 

O ANTICRISTO, DE FRIEDRICH NIETZSCHE 

Publicado pela primeira vez em 1895, O Anticristo é uma das obras mais polémicas de Nietzsche, pela sua forte crítica e oposição ao cristianismo. Célebre pela frase “O Evangelho morreu na cruz”, o livro destaca-se pela afirmação de que a vitória do cristianismo sobre o paganismo, na época Greco-Romana, é considerada um retrocesso na história das civilizações.

O Estado Novo era, nessa altura, fortemente ligado à Igreja Católica, concedendo-lhe diversos privilégios, pelo que a obra do alemão Nietzsche foi proibida em 1973.

 

ANTOLOGIA DE POESIA ERÓTICA E SATÍRICA, DE NATÁLIA CORREIA

Em 1965, a obra de Natália Correia foi imediatamente apreendida pela Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), considerada um escândalo literário e matéria de julgamento em Tribunal Plenário. A autora, o editor e muitos dos poetas no livro reunidos, foram acusados de ofender o “pudor geral”, a “decência”, a “moralidade pública” e os “bons costumes”.

Antologia de Poesia Erótica e Satírica foi “um marco relevante por divulgar inúmeros textos poéticos ditos imorais”, segundo Daniel Pires, presidente da direcção do Centro de Estudos Bocageanos. Uma coleção notável de literatura erótica portuguesa.

 

BICHOS, DE MIGUEL TORGA

Uma coleção de 14 contos, protagonizados por humanos e animais que partilham características e enfrentam os mesmos problemas do dia-a-dia, com um carácter profundamente humano, num tom dramático e, por vezes, até desesperado – Bichos foi publicado pela primeira vez em 1940, tendo sido censurado pelo Estado Novo em 1953.

Miguel Torga, autor oriundo de Trás-os-Montes, era apelidado de “escritor comunista”, ainda que ele tivesse tentado provar o contrário, ao enviar diretamente a Salazar um dos seus livros para que este pudesse analisar a sua escrita. Todavia, para além de Bichos, o escritor viu mais 12 livros seus proibidos pela censura portuguesa, como A Criação do Mundo ou Contos da Montanha.

 

TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO, DE HENRY MILLER

Apesar de ter sido proibido em 1961 pelo Estado Novo, a verdade é que a obra de Henry Miller tem um longo historial de censura desde a sua primeira publicação, em Paris nos anos de 1930. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, o livro também foi banido por ser considerado “pornográfico”, embora continuasse a ser distribuído em França e contrabandeado para outros países.

Trópico de Capricórnio narra a vida de um escritor americano entre prostitutas, proxenetas, pintores sem dinheiro e escritores do submundo parisiense, num relato ficcional que é, em tudo, paralelo ao do próprio Miller. O escritor ergue, assim, um hino ao mundo da sexualidade e da liberdade nas suas formas extremas, tornando-se controverso e objeto de censura não só em Portugal, mas também noutros países.

 

 

AS TORRES MILENÁRIAS, DE URBANO TAVARES RODRIGUES

Publicada pela primeira vez em 1971, é a única peça teatral do escritor. As Torres Milenárias, tem como ponto de partida uma invasão extraterrestre ao planeta Terra, e foi proibida no mesmo ano do seu lançamento, por ser considerada uma crítica à burguesia e por “descrever cenas da mais grosseira imoralidade” e “de puro deboche” que, aos olhos da censura, não correspondiam à verdade.

Contudo, foram vários os livros de Urbano Tavares Rodrigues censurados, entre eles Esta Estranha Lisboa, devido à imagem que retratava, de um país amordaçado pela censura e pela miséria.

 


 

Para além destes, foram vários os autores que viram as suas obras proibidas em Portugal. Entre eles, destacam-se principalmente obras de grande carga filosófica e política, como Karl Marx e o seu O Manifesto Comunista, Jean Paul Sartre com Os Sequestrados de Altona e até Martin Luther King e a obra Força para Amar (Strength to Love, no original).

Entre os autores portugueses que também passaram por este escrutínio, encontra-se José Vilhena, considerado o pai do humor em Portugal, e um dos escritores com mais obras censuradas na época, ou ainda José Afonso que, na altura, para além das suas músicas, viu também vários livros seus serem proibidos.

Celebremos, pois, a liberdade e, porque não, aproveitemos agora para ler ou reler estas obras, em homenagem ao talento e persistência dos seus autores.

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