José Tolentino Mendonça: "Uma biblioteca é uma jangada que nos vai sobreviver"

Por: Marisa Sousa a 2020-11-26

José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

Poeta, sacerdote e professor, José Tolentino Mendonça nasceu na ilha da Madeira em 1965. Estudou Ciências Bíblicas em Roma e vive no Vaticano desde 2018. Em 2019, foi nomeado Cardeal pelo Papa Francisco; em 2022 foi anunciado como prefeito do novo Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé. Desde 2017, a sua obra ensaística está a ser publicada na Quetzal.

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Nasceu a 15 de dezembro de 1965, na Madeira, e teve no mar a sua escola do espanto. A escrita começou como um estranhamento e é da Bíblia ("um grande poema”) que nasce o seu amor pela literatura, essa escola de sabedoria. Investido cardeal em finais de 2019, o "Bibliotecário de Deus e dos Homens”, como já foi apelidado, foi eleito pelo Papa Francisco para ser o guardião do mais vasto arquivo do saber, o grande arquivo do Vaticano. Vê na poesia um lugar de inevitabilidades e gosta de citar Beckett ("falhar, falhar mais, falhar melhor”), para sublinhar a importância da arte de falhar, de esculpir, tirar camadas, para cada vez mais chegar ao osso, ao essencial. No seu novo livro, Rezar de Olhos Abertos (Quetzal) defende que a oração, mais do que um assunto privado, é um problema político, um assunto de conversa para todos. José Tolentino Mendonça, o cardeal poeta, no presente indicativo do verbo viver.


Nasceu na Madeira e viveu uma infância dividida entre a ilha e Angola, onde o seu pai vivia e trabalhava como pescador. Que música toca nas memórias da sua infância?
Uma casa na praia, onde o sol era um quotidiano locatário como qualquer outro de nós. A alegria confusa e límpida de uma família numerosa. A juventude dos meus pais que então eram mais jovens do que eu hoje sou. A companhia do mar que foi a minha escola do espanto. As histórias da minha avó. Essa sensação que a infância nos dá de existirmos no sentido mais simples.


Qual é a primeira memória que tem relacionada com livros?
Uma coisa banal. Vi um livro de histórias que pertencia a um vizinho e desejei que fosse meu. É uma cena que se repete quando somos miúdos, mas recordo esse sentimento. Foi a primeira coisa que conscientemente desejei. Talvez nem soubesse ainda ler.


E com a escrita?
A escrita foi mais tarde. Está certamente ligada à escrita dos primeiros poemas, quando de repente olhamos para as nossas mãos e não as conhecemos. A escrita começa por esse estranhamento. Damos por nós a perguntar: "isto é o quê?". Como se um sismo ou um milagre nos tomasse.


Fale-nos um pouco da sua avó Maria, aquela que, mesmo não sabendo ler nem escrever, considera ter sido a sua “primeira biblioteca”.
Ela aparece como informante num Romanceiro oral da Ilha da Madeira. Ofereceu-me o grande privilégio de primeiramente ter contactado com a literatura através da forma oral. Jorge Luis Borges diz que todos os livros têm uma voz que é preciso escutar. É verdade. Mas a literatura oral diz-nos também que os livros são-nos trazidos por uma voz humana concreta. Lembro-me de estarmos em roda, sentados à volta dela, noite após noite, suspensos do que nos contasse.

 

"Uma biblioteca é um assunto para enfrentar com ironia."


Diz no seu primeiro poema, A Infância de Herberto Helder: “Não sabia que todo o poema / é um tumulto / que pode abalar / a ordem do universo agora / acredito.” Continua a acreditar que a poesia tem esse poder de abalar a ordem do universo? Estes dias, por exemplo, parei numa coisa que o poeta sul-coreano Ko Un disse numa entrevista: "a escrita do poema é como o pranto de um insecto". Algo se abala no universo, verdade?
Há quem defenda que cada leitor tem um livro que muda a sua vida e ao qual regressa sempre. Posso perguntar-lhe qual é o seu (além da Bíblia, presumo)? A Bíblia não é um livro, é uma biblioteca vertiginosa. Permitam-me não fugir dela, porque o meu amor pela literatura nasce daí. Quando fui ordenado padre, há trinta anos, fiz aquilo que todos os padres fazem: a promessa de recitar diariamente o Livro dos Salmos. É uma antologia poética tremenda. Uma espécie de autobiografia da inquietação e do desejo de Deus. Sem dúvida que a literatura bíblica sapiencial me toca particularmente: os Salmos, mas também o Eclesiastes ou o Cântico dos Cânticos. Depois os profetas: Isaías à cabeça, mas também a prodigiosa oficina de imagens de Ezequiel, ou o existencialismo atribulado de Jeremias. Dos Evangelhos, Lucas tem sido o que tenho trabalhado mais persistentemente, mas cada um dos outros é absolutamente inesquecível. E para citar um dos textos de São Paulo, a Carta aos Romanos que é um dos textos mais fulgurantes que li.


Foi chamado pelo Papa Francisco para ser o guardião de um dos mais vastos arquivos do saber, a biblioteca e o arquivo central do Vaticano. Sentiu-se deslumbrado ao contemplar este arquivo?

O filósofo Blaise Pascal dizia que ao pensarmos nos espaços siderais vem-nos um arrepio. Acho que aqueles espaços são dessa natureza.


Que tesouros encontrou, que lhe alimentaram o sonho?

Vou dizer uma coisa que poderá parecer contraditória, porque não falarei de livros ou documentos. Como arquivista e bibliotecário ajudo a gerir duas amplas equipas de trabalho, que desenvolvem atividades técnicas e asseguram uma intensa produção científica a partir daqueles materiais. Para mim, o maior tesouro são aquelas pessoas. A minha missão é valorizar e contagiar de entusiasmo o percurso de cada um. Se todos se sentirem identificados com o projeto, a biblioteca estará bem.


É inevitável não cogitarmos sobre a sua biblioteca pessoal. Fale-nos um pouco sobre ela.
Há uma história divertida que Umberto Eco contava. Quando alguém o visitava e, espantado pela extensão da sua biblioteca, lhe perguntava se ele já tinha lido todos aqueles livros, Eco respondia: “Estes são os que reservei para ler este fim-de-semana”. Uma biblioteca é um assunto para enfrentar assim com ironia. Reflete os nossos interesses profissionais, mapeia a nossa biografia inteletual, conta os nossos encontros realizados e falhados, as manias, curiosidades, perguntas, paixões. Mas fá-lo de um modo desmesurado, singularíssimo, maior do que a vida e do que as suas possibilidades. Uma biblioteca é uma jangada que nos vai sobreviver.

 

E se lhe pedisse para nomear 5 ou 6 livros absolutamente essenciais, que todos deveríamos ler?
Eu sugeria que se lesse a Ilíada, mas também o comentário que Simone Weil escreveu (“A Ilíada ou o poema da força”). Que se lesse as Confissões, de Santo Agostinho e o pequeno ensaio de Harold Bloom, Santo Agostinho e a leitura; a Divina Comédia, de Dante Alighieri e o comentário que escreveu Mandel'štam ou Borges; a poesia de Rainer Maria Rilke e o intenso e radical comentário que Etty Hillesum faz no seu Diário; um livro de Maria Gabriela Llansol e a chave oferecida por Silvina Rodrigues Lopes em Teoria da Des-possessão. É importante ler os livros, mas também entrar no espaço vivo da leitura.

 

Leia aqui a segunda parte da entrevista.

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