Irene Flunser Pimentel - Parte II | Somos Livros Edição Comemorativa

Por: Elísio Borges Maia a 2022-09-15 // Coordenação Editorial: Marisa Sousa

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Livros e cidadania

“Parece impossível escrever sobre o protagonismo do mundo do livro no século XXI, sobre as livrarias independentes e as bibliotecas mais desafiantes ou inovadoras, sobre as constelações de leitores que, como eu, continuam a acreditar no papel sem pensar na Amazon como antagonista.” Ao longo dos últimos anos, o autor espanhol Jorge Carrión visitou bibliotecas (reais e imaginárias) e livrarias em todo o mundo, com o intuito de deixar firmado o valor do livro e da sua proximidade como pilares da nossa educação sentimental e intelectual. Depois de Livrarias, publicado pela Quetzal em 2017, regressa agora com um livro-manifesto a que chamou Contra a Amazon.

Música e literatura

“As mãos pousam ao piano. Na brancura do teclado, os dedos se deixam deslizar, potentes cavalos-marinhos de volta à água aonde pertencem. Lançada de cima, a luz do palco o divisa da escuridão, abre cortinas por entre as cortinas.” Assim começa a história de Rômulo Castelo, um pianista virtuoso, inteiramente dedicado à busca da perfeição na sua arte. Todas as manhãs, ao acordar, fecha-se na sua sala de estudos e ensaia aquela que é considerada a peça intocável de Franz Liszt, o Rondeau Fantastique. Em breve, Rômulo irá oferecê-la ao mundo, numa tournée pela Europa que o sagrará como o maior intérprete daquele compositor. 

Pai é…

Pai é táxi, é quem nos leva às cavalitas e nos guia pelas ruas da vida. Segue todas as direções que lhe indicamos com um sorriso no rosto e nunca nos deixa ficar parados em engarrafamentos. Sabe todos os caminhos e tem a melhor banda sonora.

Na segunda parte da nossa conversa com a historiadora Irene Flunser Pimentel, abordámos  outro  período  inescapável  na História  do século  XX:  a Segunda  Guerra  Mundial. O ponto de partida foi a sua obra (em coautoria com Cláudia Ninhos) Salazar, Portugal e o Holocausto, publicada pela Temas e Debates, em 2013. Começámos pelos desafios que este conflito internacional colocou  aos  grandes  objetivos de política externa do Estado Novo e pela resposta que Portugal escolheu: a neutralidade. Recordámos a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha e a forma como o nosso país lidou com o  problema dos refugiados antes e  durante a guerra. A nossa conversa decorreu na  manhã do  dia 28  de fevereiro, poucos dias depois de a Rússia ter atacado a Ucrânia, em manifesta violação do direito internacional. Nesta guerra, que ainda decorre, dezenas de milhares de pessoas perderam a vida e  vários milhões foram  obrigadas a procurar refúgio noutros países.



Elísio Borges Maia: Antes da Segunda Guerra Mundial, a política externa do Estado Novo tinha essencialmente três objetivos ou preocupações: a defesa da independência nacional face ao perigo espanhol, a defesa da integridade das colónias e a sobrevivência do regime1. E, de facto, a Guerra vai constituir um sério desafio a estes três objetivos. Sabemos como é que acabou: Salazar teve sucesso nos três.


Irene Flunser Pimentel: Acho que é talvez dos grandes sucessos do Estado Novo. Ainda hoje se diz isso, “ele salvou-nos da guerra”, agora que entramos numa nova guerra… Pelo menos a questão dos refugiados, vai ter importância outra vez…


E.B.M.: É uma das questões que eu gostaria de abordar, mas, primeiro, a neutralidade de Portugal. A Guerra começa no dia 1 de setembro de 1939, com a invasão da Polónia. Nesse mesmo dia, Portugal, unilateralmente, sem informar previamente a Inglaterra, declara a neutralidade, o que, cedo se percebeu, convinha quer aos ingleses quer aos alemães, ainda que por razões diferentes. Ainda assim, esta passou por várias fases. Como é que evoluiu a neutralidade portuguesa ao longo da Guerra? E como é que os dois blocos, em especial a Inglaterra e a Alemanha, lidaram com ela?


I.F.P.: A neutralidade, declarada por Salazar em 1 de setembro de 1939, logo que a Alemanha nazi invadiu a Polónia, era desejada pelos dois lados beligerantes. De uma forma muito geral, à Grã-Bretanha interessava manter a Península Ibérica neutra, esperando que Salazar conseguisse convencer Franco a não entrar na guerra, até porque dominava o Atlântico. Por outro lado, à Alemanha, que importava de Portugal e das colónias muitos produtos, interessava-lhe sobretudo o volfrâmio, a partir do momento em que, com a guerra, já o não podia adquirir noutros locais. É muito importante para o esforço de guerra alemão, mas não só o volfrâmio — por exemplo, as conservas portuguesas foram importantíssimas na campanha da União Soviética, os lanifícios e por aí fora. Só que, durante todo esse percurso, evidentemente, quer a Alemanha nazi quer a Grã-Bretanha tentam que a neutralidade portuguesa lhes seja favorável. A neutralidade portuguesa sofreu vários perigos, desde logo da parte da Alemanha com os planos da Operação Félix…


E.B.M.: Após a capitulação da França em 1940…


I.F.P.: Exatamente. Em novembro de 1940, visando Gibraltar. Do lado da Grã-Bretanha, é muito interessante ler nos arquivos britânicos as atas das reuniões do Governo britânico com Churchill a falar em Portugal, porque, de facto, era assim uma espécie de peão... Os planos de transferir o Governo para os Açores [no caso de invasão alemã da Península Ibérica]… Há todo esse debate, que se vai modificando. Salazar tem uma atitude muito pragmática, olha pouco a ideologias no campo da política externa. Dentro do próprio regime, havia germanófilos e anglófilos. A Grã-Bretanha é uma monarquia e os mais conservadores em Espanha e Portugal admiravam-na, desde logo Armindo Monteiro, embaixador em Londres, que é um anglófilo, claramente. Depois, há uma outra fase que é marcada pela invasão da União Soviética pelas tropas nazis, iniciada em 22 de junho de 1941. Aí, dentro do regime, há uma pulsão de apoio à Alemanha contra o comunismo, um aspeto central na ideologia do regime salazarista.


E.B.M.: O contrário do que acontecera com a notícia do pacto germano-soviético. Nessa altura, a balança pendeu mais para o lado anglófilo, houve ali um choque provocado por aquele acordo…


I.F.P.: Sim, um choque para o regime e também para o PCP, que era a oposição ao regime… há muitas divisões e problemas internos. No Tarrafal, há uma grande discussão entre Bento Gonçalves e José de Sousa, justamente quanto à posição a tomar sobre esse pacto. Voltando ao período após a invasão da União Soviética, há até uma tentativa da parte dos diplomatas alemães em Lisboa de convencer Salazar a mandar tropas para ajudar os nazis na ocupação da União Soviética — tal como a Divisão Azul em Espanha — uma vez que o comunismo era o inimigo principal, o que ele claramente recusa. Mas, ao mesmo tempo, a Legião Portuguesa faz programas anticomunistas e de apoio à Alemanha nazi na ocupação na emissora nacional. Depois, a partir de 1943, a neutralidade portuguesa muda completamente porque todos já sabem quem é que vai ganhar a guerra, não é verdade?


E.B.M.: A derrota em Estalinegrado e no Norte de África…


I.F.P.: A tomada da Sicília pelos aliados. Tudo isso vai alterar a neutralidade portuguesa, embora Portugal, o Governo português de Salazar, continue sempre a exportar produtos fundamentais para a Alemanha nazi. O embargo do volfrâmio só ocorre no início de 1944.


E.B.M.: Depois de um braço-de-ferro que poderia ter derrubado Salazar, não é verdade? Os ingleses…


I.F.P.: E os americanos…


E.B.M.: Ponderaram seriamente essa opção.


I.F.P.: Aliás, durante todo esse tempo, para os nazis e alemães em Portugal há ali a mãozinha da pérfida Albion a tentar derrubar Salazar, que eles deviam apoiar… Um militar alemão, num discurso ainda antes da entrada na Guerra, em 1938, defendia que a Alemanha nazi tinha de apoiar o salazarismo, porque Salazar estava muito próximo

 

“A neutralidade, declarada por Salazar em 1 de setembro de 1939, logo que a Alemanha nazi invadiu a Polónia,   era desejada pelos dois lados beligerantes.”


 


Capa da Revista Mundo Gráfico, n.º 1, 15 de outubro de 1940. Fonte: BLX-Hemeroteca Municipal de Lisboa

 

 

da Alemanha e tinha tratados com a Espanha, que eles consideravam sua e acreditavam poder vir a entrar na Guerra. Recordo que a Espanha assumiu um estatuto de não beligerante até 1943, não de neutralidade. Neutro, realmente, foi Portugal.


E.B.M.: Portugal teve mesmo um papel importante na contenção da posição espanhola, através de um tratado bilateral e, depois, um protocolo adicional, negociados pelo embaixador Pedro Teotónio Pereira, que são importantes naquele contexto…


I.F.P.: São fundamentais e Salazar tem aí um papel… a Grã-Bretanha conta com esse papel, isso é um facto. Há também outro aspeto importante, que já entra na questão dos refugiados: o antissemitismo não faz parte da ideologia de Salazar. É uma grande diferença relativamente ao nacional-socialismo alemão, para o qual o antissemitismo é central na sua ideologia — tem um caráter racial, biológico. Para eles, os judeus não eram pessoas com uma cultura ou religião diferente, não era esse o problema: eles faziam parte de uma raça diferente. Não quer dizer que não houvesse antissemitismo em Portugal, havia ideólogos antissemitas, mas era muito minoritário e, sobretudo, era de caráter ainda católico… aquele antissemitismo…


E.B.M.: Com dois mil anos…


I.F.P.: Exatamente. Para o salazarismo, a religião tinha influência, para o nazismo esta não tinha qualquer influência. Os judeus não eram seres humanos com outra cultura ou religião minoritária, constituíam, para o nazismo, uma raça à parte, que ameaçava a raça pura alemã, a ariana, que era uma invenção. Outras raças também eram menosprezadas, como os eslavos, mas estes iam servir como escravos, no grande espaço vital alemão. Já os judeus tinham de ser destruídos porque, se não fossem destruídos, mais tarde destruiriam a raça pura alemã — eram o inimigo principal. Ao mesmo tempo, os nazis invejavam-nos, porque diziam: “eles cruzam-se entre eles, há muita endogamia e, portanto, são uma raça pura”, a principal inimiga da “raça” alemã, que queria destruir esta última. Os judeus também eram encarados, pelos nazis, como vírus ou bactérias que queriam destruir o “corpo saudável” alemão. E o que se faz a um vírus ou a uma bactéria? A visão nazi era uma mistura de eugenismo com um darwinismo social, segundo o qual o mais forte sobreviveria, aniquilando o mais fraco.


E.B.M.: No fundo, gostariam de ser como os judeus…


I.F.P.: Isso é muito curioso, quando se lê o Mein Kampf, há quase uma admiração pela raça pura judaica. Por isso, era tão perigosa, pensavam eles.


E.B.M.: Olhemos então para uma outra consequência do conflito mundial: os refugiados. A entrada de refugiados em Portugal começa muito antes do início da guerra.


I.F.P.: Sim, em 1933.


E.B.M.: Em 1933, quando se dá a ascensão do nacional-socialismo na Alemanha. Logo nessa altura, há uma suspensão de direitos civis e a prisão de quatro mil oposicionistas que são enviados para o primeiro campo de concentração…


I.F.P.: Em Dachau. A perseguição começa pelos adversários políticos…


E.B.M.: Ainda nesse ano, em maio, os livros de autores “anti-nazis”, judeus na sua maioria, são queimados por toda a

 

"Os judeus não eram seres humanos com outra cultura ou religião minoritária, constituíam, para o nazismo, uma raça à parte, que ameaçava a raça pura alemã, a ariana, que era uma invenção.”

 

Alemanha. Assim, alguns alemães, não apenas judeus, começaram a vir para o nosso país. Entravam facilmente por causa do acordo luso-alemão de 1926, que isentava de visto essas entradas, e podiam também trabalhar, exceto por conta de outrem. Depois, este fluxo vai aumentar, nomeadamente com as Leis da Cidadania e do Sangue Alemão de Nuremberga, em 1935 (entre outras consequências, os judeus passam a ser apátridas), e, em 1936, a PVDE começa a tentar travar a entrada de alemães, de judeus alemães.


I.F.P.: Nessa época, a preocupação da PVDE ainda é mais com a vizinha Espanha…


E.B.M.: Até porque em 1937 o atentado a Salazar acaba por ter algum reflexo no que respeita à entrada de estrangeiros…


I.F.P.: Absolutamente, para a PVDE os estrangeiros ou são bandidos ou são possíveis espiões.


E.B.M.: Voltemos ainda aos refugiados alemães: quando a PVDE começa a colocar entraves à sua entrada, a representação diplomática alemã protesta, porque, nessa altura, ainda convinha à Alemanha que essas pessoas saíssem do território e tudo fez nesse sentido, não é verdade?


 


Capa do Diário de Notícias, 5 de julho de 1937.

 

“Em 1938 [...], a política antissemita entra numa nova etapa,   a da expulsão de todos os judeus dos territórios alemães, ‘arianizando’ (roubando) a sua propriedade. E aí, de facto,
é necessário que outros países os recebam porque não estamos na fase genocidária do holocausto.”

 

 

I.F.P.: Isso mesmo. Logo em 1933, em abril, já surgem na Alemanha as primeiras leis antissemitas, para retirar os judeus do espaço público, de certas profissões e da administração pública. Depois, em 1938, entramos numa fase completamente diferente. É a fase da anexação da região dos Sudetas (na Checoslováquia), da anexação da Áustria, onde havia muitos judeus, e a política antissemita entra numa nova etapa, a da expulsão de todos os judeus dos territórios alemães, “arianizando” (roubando) a sua propriedade. E aí, de facto, é necessário que outros países os recebam porque não estamos na fase genocidária do holocausto. Nessa altura, os vários países — e Portugal não se diferencia, apesar de ser uma ditadura, da França ou da Suíça — fecham as fronteiras. Aliás, a Conferência de Évian, no verão de 1938, que decide o fecho de fronteiras, foi promovida para resolver o problema dos refugiados e é um autêntico falhanço… Portugal não é convidado, mas é nesse contexto, seguindo o exemplo de outros países europeus, que Salazar manda introduzir os vistos de turismo de 30 dias, para evitar uma negociação da obrigação de vistos com outros países, como a Alemanha. Esta medida é já dirigida contra os judeus, porque são os judeus que estão impedidos de voltar ao seu país de origem. Estão a ser expulsos e vêm com passaportes especiais que dizem: “este emigrante não pode voltar ao seu país de origem”.


E.B.M.: Ainda antes da introdução do “J” nos passaportes.


I.F.P.: O Veiga Simões [ministro plenipotenciário de Portugal em Berlim] descreve todo esse percurso… ele chama a esses passaportes especiais, antes do “J”, “vistos de saída alemães”, porque são, afinal, guias de marcha para judeus que não podem regressar ao seu país de origem. Os países ficam todos amedrontados porque a crise de 1929 ainda está muito presente. Há ainda muito desemprego, e aí, de facto, começam a ser fechadas as fronteiras. Portugal, nas circulares que são enviadas pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), uma pasta que é de Salazar, não nomeia os judeus... diz sempre: “aqueles que têm passaportes especiais e não podem voltar ao seu país”. Embora a partir de 1939-40, por exemplo no caso da Holanda, encontremos cartas, telegramas do MNE e do próprio Salazar, a assumir a recusa de vistos aos judeus. Entra-se, digamos, numa fase de antissemitismo objetivo…


E.B.M.: Para nos situarmos: a primeira circular do MNE que introduz mudanças importantes é a n.º 10, ainda em 1938…


I.F.P.: Acho que é de outubro, antes da Noite de Cristal, que foi em novembro.


E.B.M.: E o que muda?


I.F.P.: O que muda para todos esses imigrantes com passaportes especiais é que não recebem vistos de estadia. É a transformação de Portugal em país de trânsito, apenas, já não de estadia ou exílio, que era o que estava a acontecer com os poucos que vieram a partir de trinta e três… eles não podem entrar, mas ainda podem recor- rer a um visto de 30 dias de turismo. É, tipicamente, a forma como Salazar utilizava a legalidade, uma espécie de privilégio: podem recorrer a esses vistos e depois, rapidamente, ir embora, para países de exílio do outro lado do Atlântico. A partir daí, num processo que vai da Circular n.º 10, de outubro de 1938, à Circular n.º 14, de novembro de 1939, Portugal transforma-se num país só de trânsito.


E.B.M.: Aí já tinha começado a Segunda Guerra, o fluxo de refugiados aumenta...


I.F.P.: Em 1938, já é bastante grande. Depois, com o início da Guerra, eles esperam esse fluxo maior e a Circular n.º 14 vai, desde logo, eliminar a possibilidade de qualquer cônsul honorário conceder vistos.


E.B.M.: Fica um poder restrito aos de carreira…


I.F.P.: Aos de carreira, porque muitos dos cônsules honorários eram até judeus na Alemanha — o de Frankfurt, o de Nuremberga. Havia também o Agenore Magno, em Milão, que concedeu muitos vistos. Era um italiano, um aristocrata a quem horrorizava o antissemitismo, numa fase em que a própria Itália já tinha leis antissemitas, em 1938. Por outro lado, os cônsules de carreira tinham de perguntar ao Ministério e à PVDE se podiam conceder vistos e isso só era possível se as pessoas que os requeriam já tivessem o visto do país de destino. Mais tarde, isto é agudizado porque têm de mostrar, não só o visto, mas também o bilhete ou pelo menos a reserva da passagem para o país de destino. Os refugiados precisam do visto de saída alemão, do visto de entrada — a partir da ocupação de França — na “zona livre francesa”, do visto espanhol e do visto português, que, por sua vez, só era dado a quem tivesse um visto de destino e, depois, também a passagem… Na prática, as fronteiras estão fechadas para os refugiados. Claro que havia exceções, corrupções várias… Há outro aspeto importante: Salazar permitiu que as organizações judaicas se implantassem em Portugal e tinha até uma relação boa com o chefe da comunidade judaica ou israelita portuguesa, Moisés Amzalak. E não esqueçamos também o Aristides de Sousa Mendes. 

 

“Os refugiados precisam do visto de saída alemão, do visto de entrada — a partir da ocupação de França — na “zona livre francesa”, do visto espanhol e do visto português, que, por sua vez, só era dado a quem tivesse um visto de destino e, depois, também a passagem…”
 

 


E.B.M.: Falemos de Aristides de Sousa Mendes. No dia da entrada dos alemães em Paris, dia 14 de Junho de 1940, o MNE divulga a Circular n.º 23 que determina que os pedidos de visto passam a ser dirigidos diretamente pelos consulados à PVDE, e é precisamente neste contexto que vai atuar Sousa Mendes. É verdade que houve outros diplomatas que criticaram estas circulares, que intercederam em casos concretos pelas pessoas que estavam a tentar entrar em Portugal…


I.F.P.: O próprio Veiga Simões que muitos dizem que é ambíguo, mas eu acho que ele fez o possível.…


E.B.M.: Muitas vezes os argumentos eram claramente táticos…


I.F.P.: Aliás, o próprio Aristides de Sousa Mendes recorre a esse tipo de argumentos já utilizados por Veiga Simões — “deixem entrar aqueles que são muito importantes para Portugal” —, mas, a partir de junho, ele está numa situação em que nenhum outro esteve.


E.B.M.: Isso parece ser mesmo o fator decisivo, as circunstâncias — claro que, depois, podemos estar ou não à altura delas. Ele vai desafiar radicalmente as regras que estavam instituídas. Qual foi a importância da sua atuação, do ponto de vista humano e do ponto de vista político? Ainda hoje, a imagem internacional que Portugal acabou por granjear está quase inteiramente relacionada com este acontecimento…


I.F.P.: Absolutamente. O próprio Salazar aproveitou a atitude de Sousa Mendes no final da guerra para dizer: “Não… nós até deixámos entrar, salvámos uma quantidade  de gente.” Apropriou-se da atitude de Sousa Mendes que ele puniu, continuou a punir e nunca reabilitou. Quando [o embaixador em Madrid] Pedro Teotónio Pereira vai à fronteira franco-espanhola para ver o que se passa, ele dá a ideia de que Sousa Mendes enlouqueceu, mas não deixa de dizer que a situação era realmente muito complicada… eram milhares e milhares de pessoas que se tentavam salvar, à medida que as tropas alemãs chegavam aos Pirenéus. O que eu acho fundamental é a explicação que Aristides de Sousa Mendes dá, muito pouco tempo depois, no processo disciplinar que lhe é movido pelo Ministério (portanto, ainda em 1940). Ele explica o que é que fez e eu acho muito interessante utilizar os seus próprios argumentos: primeiro, ele diz que é um católico, cristão e acha que Portugal — não é caso único, o cônsul em Marselha também utiliza essa argumentação —, como país católico, tem de se redimir relativamente à Inquisição; depois, ele diz também: a Constituição portu- guesa não permite discriminações em razão da religião ou da raça, e eu obedeço à minha Constituição. A minha Constituição não me permite perguntar se determinada pessoa é judia ou não, é rica ou não é rica, tem dinheiro para ficar em Portugal ou ir-se imediatamente embora, não me permite e eu estaria a discriminar se o fizesse. Eu utilizo muito essa argumentação para explicar porque é que Aristides de Sousa Mendes fez o que fez: objetivamente, ele desobedeceu às ordens de Salazar, salvando aquelas pessoas num momento em que não sabia o que lhes ia acontecer porque não estamos ainda no Holocausto. Aliás, muitos dos escolhidos como justos em Yad Vashem, em Jerusalém, são quase todos já no período do Holocausto. Em 1940, isso não acontecia… nem se imaginava que os nazis iriam levar a cabo o genocídio dos judeus.


E.B.M.: Além dos argumentos, houve a situação de facto, não é verdade? O que terá sido, de repente, em poucos dias ter milhares de pessoas em torno do consulado português em Bordéus, das mais diversas origens, incluindo governantes e diplomatas?

 


Refugiado judeu e o seu filho esperam num cais de Lisboa pelo paquete que os levará da Europa.
Revista Mundo Gráfico, janeiro de 1940 | Fonte: BLX-Hemeroteca Municipal de Lisboa

 

I.F.P.: Sim, porque ele não deu só vistos aos judeus. Ele deu-os a pessoas que até então eram os chefes do governo, até de locais onde ele já tinha sido diplomata. Eu acho que sim, a circunstância é fundamental. Ele sabe que vai ser punido, que a situação vai ter consequências para a sua família e, no entanto, fez o que fez. Quando vou às escolas, as pessoas perguntam muito sobre o Aristides de Sousa Mendes e eu respondo assim: “Objetivamente, aquele homem teve uma  atitude de herói”, se utilizarmos a palavra herói e a palavra está aí para ser utilizada, porque qualquer pessoa que salva outra pessoa é um herói — e ele salvou milhares de pessoas. E se houve refugiados em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial — curiosamente agora é que se está a começar a perceber que Portugal teve um papel importante, a esse nível — foi graças ao Aristides de Sousa Mendes, porque o grosso das pessoas que vieram, passaram por Portugal em junho de 1940 e durante todo o verão, contra a vontade de Salazar. Dá importância à História e, também, ao que se está a passar hoje.


E.B.M.: Aristides de Sousa Mendes não só toma a decisão de passar os vistos, como dá ordens ao cônsul de Baiona para também os passar e continuará a passar vistos já depois de ter sido afastado.


I.F.P.: Ele vai para Baiona e, depois, para Hendaia, na fronteira, continuar a passar vistos e é por isso mesmo que não se pode saber hoje, rigorosamente, quantos vistos é que passou. Portanto, clandestinamente, ele continuou a fazer isso.


E.B.M.: Há, depois, um período em que a Espanha deixa de reconhecer os vistos portugueses e ainda ficam milhares de pessoas, com vistos de Aristides de Sousa Mendes, impedidas de entrar, mas, antes disso, muitas outras conseguiram fazer o seu caminho. As autoridades portuguesas tentaram barrar-lhes a entrada em Vilar Formoso, mas os espanhóis não o permitiram…


I.F.P.: “Eles têm vistos portugueses, não queremos saber”, “foram concedidos legalmente por um cônsul português”…


E.B.M.: É nesse momento que há um pico muito grande nessa vaga de refugiados. Aproximadamente, estamos a falar de que dimensão? E como é que as autoridades portuguesas lidaram com esse fluxo de refugiados numa altura em que decorria uma grande operação de propaganda, com o Duplo Centenário [1140 e 1640] e a Exposição…


I.F.P.: A Exposição do Mundo Português. Na fronteira, o diretor da PVDE, Agostinho Lourenço, ainda quis fechá-la,

 


Aristides de Sousa Mendes

 

“[Aristides de Sousa Mendes] diz também: [...] A minha Constituição não me permite perguntar se determinada pessoa é judia ou não, é rica ou não é rica, tem dinheiro para ficar em Portugal ou ir-se imediatamente embora, não me permite e eu estaria a discriminar se o fizesse.”

 

mas os espanhóis não quiseram os refugiados de volta, pelo que deixaram-nos entrar e dividiram-nos. Aqueles que tinham vistos legais, que eram uma minoria, esses puderam ir até Lisboa, para depois apanhar o barco. Os outros foram confinados em residência fixa, em determinados locais, mas não teve nada que ver com os campos de internamento franceses e espanhóis. Foram para as Caldas da Rainha, Figueira da Foz, Foz do Arelho, Costa da Caparica, também os houve no Porto, em Coimbra. É sobretudo nas Caldas da Rainha que estavam confinados, porque em cidades como Coimbra não havia polícia que conseguisse ver por onde é que iam. Estavam instalados em hotéis, pensões, em quartos e, quase todos, dão uma imagem bastante cor-de-rosa de Portugal e dos portugueses em geral, que os ajudaram. Inicialmente, os portugueses não percebiam muito bem porque é que aquela gente, com um ar culto e que até parecia mais rica, estava a ser perseguida… Portugal estava completamente fechado debaixo da censura; os jornais quando começaram a publicar notícias sobre os refugiados referiam-se-lhes como “Refugiados de guerra”, portanto, estavam a fugir à Guerra… Mais interessante ainda é o facto de Salazar ter conseguido eliminar a memória desse período, porque eu própria sou historiadora e só me apercebi dessa dimensão a partir do final dos anos oitenta, quando, de forma pioneira, um historiador alemão e outros alemães começaram a tentar investigar essa questão. Portanto, é um assunto que veio de fora para dentro… o interesse por ele veio de fora para dentro.


E.B.M.: O Ansgar Schäfer?


I.F.P.: O Ansgar Schäfer também, mas foi o Patrik von zur Mühlen o primeiro a escrever um livro sobre a via de fuga de França, através de Espanha e de Portugal. Antes, não era assunto. O tema de Portugal na Segunda Guerra Mundial é essencialmente estudado, em primeiro lugar, pelo Fernando Rosas e pelo António José Telo, e o tema dos refugiados estava quase ausente. Eu tive a sorte de trabalhar na livraria Buchholz, na altura, e esta mesma autora (a Christina Heinrich), com quem estou agora a fazer este livro, publicado na Alemanha neste mês de março, veio ter à livraria, que era uma livraria alemã, e disse-me: “Quero livros sobre os refugiados em Portugal”… Eu ri-me durante uns minutos e depois expliquei-lhe que não, que não havia nada… portanto, é um assunto que vem de fora para dentro.


E.B.M.: E quanto à dimensão desta vaga de refugiados, fala-se, só naquele ano de 1940, em quarenta mil pessoas…


I.F.P.: Há quem fale em cem mil, eu acho que o número está inflacionado. Nas contas que fiz, não é muito rigoroso, cheguei a um número entre sessenta e oitenta mil, mas o que se pode dizer é que, graças ao Aristides de Sousa Mendes, entre junho de 1940 e maio de 1941, terão entrado aproximadamente quarenta mil refugia- dos, dados do Joint [American Jewish Joint Committee].


E.B.M.: Abordando agora um outro lado da questão, embora haja uma avaliação de Portugal que não deixa de ser positiva (desde logo, a forma como foram acolhidos), nós nunca quisemos que estas pessoas permanecessem no nosso país.


I.F.P.: O Portugal de Salazar não quis e, aí sim, prevaleceu a ditadura nacionalista que aqui vigorava, isto não era nenhuma democracia. Há aquele episódio do embaixador Armindo Monteiro que pede o Salazar, de Londres, para deixar entrar mil polacos (tinham o visto do Aristides de Sousa Mendes, mas a fronteira

 

"Entre junho de 1940 e maio de 1941, terão entrado [em Portugal] aproximadamente quarenta mil refugiados, dados do Joint.”

 

fechou com eles ainda em França) e, para o convencer, diz: “Eles são todos de raça pura”, ou seja, não são judeus. E Salazar responde, precisamente, nós não queremos cá em Portugal esses intelectuais e políticos, porque, evidentemente…


E.B.M.: Eles podiam contagiar… e, mesmo assim, não deixaram de contagiar alguma coisa.


I.F.P.: Sim, mas depois Salazar conseguiu fechar outra vez isto tudo. Eu vejo sempre isto como uma vaga, como as vagas do mar… que vão e vêm, mas deixam algo na areia. E deixou alguma influência aqui em Portugal.


E.B.M.: Resolvida a crise da Guerra, começou aquilo que Salazar chamou a crise da paz. Ainda durante a Guerra, a população portuguesa começou a sentir claramente os seus efeitos e também da própria política económica que Salazar foi mais ou menos forçado a adotar.


I.F.P.: O congelamento dos salários.


E.B.M.: E o aumento da jornada de trabalho. Chegámos inclusive ao racionamento de bens essenciais, no final de 1943, início de 1944. Portugal ganhou economicamente com a economia de guerra, isso é indesmentível, mas, como diziam os ingleses, no fim da guerra, era “um homem com os bolsos cheios, mas a barriga vazia”.


I.F.P.: Exatamente… Muito ouro nos cofres e a barriga vazia, absolutamente. Foi um período de grande agitação.
 

E.B.M.: E temos, simultaneamente, uma reorganização da própria oposição ao regime. O PCP refunda-se nesta altura e há uma reorganização também da oposição não comunista, inclusive uma conspiração num setor mais conservador que poderia ter resultado num golpe em 1945. Temos, ainda, as eleições antecipadas que Salazar convoca em novembro desse ano e que são outro sobressalto, nomeadamente o período pré-eleitoral, em que se deu alguma abertura…


I.F.P.: O MUD [Movimento de Unidade Democrática]…


E.B.M.: Que conseguiu uma forte adesão. Com tudo isso, porque é que o Estado Novo não caiu nesse momento?


I.F.P.: Não caiu, em primeiro lugar, porque conseguiu manter a neutralidade, não participou na guerra. Depois, os aliados ocidentais que ganharam a guerra já estavam a prever uma nova guerra, ou uma nova paz… Uma paz fria ou uma guerra fria. Estavam a prever que a União Soviética seria o inimigo a partir de certa altura. Isso foi muito rápido, pensa-se hoje que Hiroshima, logo em 1945, foi mais para mostrar aos soviéticos (da parte americana) que tinham a bomba atómica. Nesse contexto, a situação geográfica da Península Ibérica, não só de Portugal, com dois regimes anticomunistas e com as ilhas (que, entretanto, tinham sido negociadas a partir de 1943 para albergarem bases militares), onde estavam os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, permitiu a continuação do regime. Essa foi a grande vitória de Salazar; Franco também manteve o regime, mas do ponto de vista diplomático teve muitas dificuldades. Salazar não teve nenhuma dificuldade e em 1949 é convidado a entrar na NATO — a NATO que é hoje tão falada. Em plena Guerra Fria. Aí, a oposição portuguesa, sobretudo a não comunista, que esperava apoio dos aliados ocidentais, percebeu. O próprio Mário Soares conta isso: em 1949, ele está preso no Aljube e o guarda, não sei se voluntariamente, até para o desnortear, deixa-o ler a primeira página do jornal (que eles estavam proibidos de ler). E a notícia de primeira página era a entrada de Portugal na NATO. Soares conta, a posteriori, que esse foi o dia em que percebeu que a ditadura não ia cair.

 



Movimento de Unidade Democrática (MUD) — reunião no Teatro Taborda em 10 de novembro de 1945.

“Salazar, em 1949, é convidado a entrar na NATO — a NATO que é hoje tão falada. Em plena Guerra Fria. Aí, a oposição portuguesa, sobretudo a não comunista, que esperava apoio dos aliados ocidentais, percebeu.”

 

 

Leia a versão integral da Revista Somos Livros Edição Comemorativa aqui (página 120).

Leia a Parte I desta conversa aqui . 

 


1 ROSAS, Fernando (1994), O Estado Novo, in História de Portugal, MATOSO, José (dir.) José Mattoso, volume VII, Círculo de Leitores, Lisboa, págs. 321-323.


 

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