Um golpe de estado em 248 páginas

Por: Bertrand Livreiros a 2024-02-20

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As Crises e os Homens
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A Selva
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“Havia uma energia no ar, um sentimento quase eufórico de liberdade”

Por acaso, foi no fatídico dia 11 de março de 1975. Calhou. Tinha desfeito a minha tenda na Alemanha e comprado, para essa data, a viagem para Portugal. Na mala, um projeto de tese de doutoramento sobre a resistência contra a ditadura do Estado Novo. Na altura, mal imaginava que nunca mais sairia de terras lusas, a não ser para ir buscar, de carro, os pertences que me faziam mais falta ou para, de longe a longe, visitar familiares e amigos. Dava os primeiros passos na língua portuguesa, conseguia entender relativamente bem os jornais (o meu latim de liceu ajudava…), mas comunicava em francês, até ao momento em que decidi que falaria, daí em diante, ainda que com limitações, apenas e só em português.

Antes de 25 de abril de 1974, ler estes livros era revolucionário

Dizia o escritor Mário Dionísio que “sem cultura, não pode haver liberdade, mas só um perigoso simulacro”. Até à Revolução dos Cravos, as imposições ditatoriais queriam que Portugal fosse esse simulacro: a Cultura que não se vergava perante os critérios vigentes era censurada, perseguida, violentada até ser calada. A literatura tinha uma particularidade: a censura só agia depois da publicação. No caso de jornais, revistas, peças de teatro, filmes e programas de televisão, existia uma censura prévia, impossibilitando algumas delas de ver a luz do dia. Mas os agentes da PIDE não tinham capacidade para examinar todos os livros que saíam, por isso, ainda que fossem proibidos e apreendidos, havia sempre a possibilidade de alguns fazerem o seu caminho e serem lidos por alguém. Parte dos relatórios de censura foi perdida depois de, no dia 26 de abril de 1974, vários populares terem invadido a sede da polícia política em Lisboa.

Maria Inácia Rezola: “É preciso trabalhar para manter o que foi conquistado com o 25 de abril.”

Costuma dizer-se que os historiadores só podem fazer História cinquenta anos após os acontecimentos. Esta é a situação do 25 de Abril? Mais do que passados cinquenta anos, penso que é sempre necessário deixar correr o tempo para que o que nós escrevamos e digamos sobre os acontecimentos não os vá alterar, ou seja, podemos e devemos refletir e escrever historicamente sobre acontecimentos, ciclos e processos que estão encerrados. Pode-se, por isso, comentar ou fazer trabalho jornalístico, mas, para se ter a perspetiva histórica, é sempre necessário existir algum distanciamento. Pode-se até contrapor que existe uma história do tempo presente, mas esta será sempre mais provisória do que a História é. No caso do 25 de Abril, como já passaram cinquenta anos, o ciclo está encerrado e tudo o que se diga ou escreva sobre esse momento não irá alterar a conclusão do processo.

Há livros que são armas, tijolos que quebram muros, "machados que quebram o mar gelado em nós" (Franz Kafka), um “tiro de pistola entre a multidão” (André Breton). Portugal e o Futuro de António de Spínola foi um desses livros. Publicado dois meses antes da Revolução sem sangue que mudou para sempre o nosso país, o livro do então militar acabou por ser a arma, a “pedrada no charco”, o “rastilho” (António Valdemar) que colocou em movimento as engrenagens da mudança. Agora, no 50º aniversário da Revolução e da publicação do livro que lhe deu início, João Céu e Silva traça aquilo que descreve como “a biografia de um livro” com O General que Começou o 25 de Abril Dois Meses antes dos Capitães (Contraponto).

Tudo começou quando Spínola tomou contacto com As Crises e os Homens (1971), de Franco Nogueira, um livro que leu como uma provocação a que teria de responder. Sendo alguém que conhecia de perto a situação que se vivia nas colónias na altura
 um dos principais pontos que o diplomata tocava no livro , por ter combatido na Guerra Colonial em Angola e ter desempenhado funções como governador da Guiné, começou a preparar a resposta que considerava adequada; na altura, inicialmente com o título Dúvidas e Certezas. Subsídios para o Equacionamento do Problema Nacional. Entre esta resolução e o dia do lançamento do livro, a 22 de fevereiro de 1974, houve peripécias para escapar à censura da PIDE, um encontro caricato de Spínola com Natália Correia no qual a escritora foi incumbida de o seduzir e convencê-lo a assinar pela editora Arcádia, e um encontro histórico entre o  jornalista António Valdemar e o editor Paradela de Abreu que ao entregar-lhe um exemplar de Portugal e o Futuro afirmou, convicto: “Você tem aqui dentro a revolução”.

São esses e outros episódios que antecederam o lançamento de Portugal e o Futuro que João Céu e Silva, vencedor do Prémio Literário Alves Redol pelo romance A Sereia Muçulmana e autor de inúmeros títulos de investigação histórica, relata em O General que Começou o 25 de Abril Dois Meses antes dos Capitães. O que se seguiu foi, segundo o autor, como fogo a arder em mato seco. Em menos de um mês, estavam esgotados cem mil exemplares, tantos quanto vendera um dos livros de maior sucesso dos último cinquenta anos em Portugal, A Selva, de Ferreira de Castro; no total, 230 mil portugueses correram às livrarias para conseguir um exemplar. Com apenas 248 páginas e, em particular, seis palavras que ficaram para a História: “A vitória exclusivamente militar é inviável”, Spínola incendiou um país que percebia agora que o Regime estava preso por um fio. 

João Céu e Silva pinta um retrato do país antes, durante e depois da publicação de Portugal e o Futuro. Marcello Caetano, percebendo de imediato o perigo do livro, pediu demissão ao Presidente da República, mas foi recebido com outra frase que ficou igualmente para a História: “ninguém sai. Se (o barco) for ao fundo, vai tudo, vamos todos.” Para vários intervenientes que ofereceram o seu testemunho a Céu e Silva, a publicação da obra de Spínola foi como um 25 de Abril antes do 25 de Abril. Dois meses depois, o barco foi finalmente ao fundo, o regime caiu e o general foi nomeado presidente da Junta de Salvação Nacional.

A História, contudo, não foi favorável a António de Spínola; foi declarado Inimigo da Revolução pela sua ligação à tentativa de golpe de 11 março de 1975, e a sua autoria de Portugal e o Futuro chegou mesmo a ser questionada. No entanto, no final, importa menos quem escreveu de facto estas palavras do que quem as assumiu como suas e as usou como arma de arremesso contra 48 anos de ditadura. Nas palavras do jornalista João Paulo Guerra, cujo testemunho também figura em O General que Começou o 25 de Abril Dois Meses antes dos Capitães: “[Spínola] escolheu a arma certa para deitar abaixo um regime que tanto reprimira o pensamento, os livros e a leitura: arremessou-lhe um livro.” Depois de lido por 230 mil portugueses, ainda que fosse banido, censurado ou até queimado, já nada havia a fazer. A revolução dos leitores era inevitável. 

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